retalhos cerzidos

"eles passarão... eu passarinho"

Textos


27 de dezembro de 2010
Sobre os amigos que você tem e os que pensa ter, de Zygmunt Bauman em Isto não é um diário — Jorge Zahar Editor

O    professor Robin Dunbar, antropólogo evolucionista da Uni­versidade de Oxford, insiste em que “nossas mentes não foram planejadas [pela evolução] para permitir que tivéssemos mais que um número limitado de pessoas em nosso mundo social”. Na verdade, Dunbar calculou esse número; ele descobriu que a maioria de nós só pode manter cerca de 150 relacionamen­tos significativos”. De modo nada inesperado, chamou esse montante, imposto pela evolução (biológica), de “número de Dunbar”. Essa centena e meia, podemos comentar, é o núme­ro atingido, mediante evolução biológica, por nossos ancestrais remotos. E foi aí onde ela parou, deixando o campo aberto para sua sucessora muito mais rápida, ágil, habilidosa, acima de tudo mais capaz e menos paciente a chamada “evolução cultural” (promovida, moldada e dirigida pelos próprios seres humanos, empregando o processo de ensinamento e aprendizagem, em vez de mudar o arranjo dos genes).
  Observemos que 150 era provavelmente o maior número de criaturas capazes de se reunir, permanecer juntas e coope­rar lucrativamente sobrevivendo apenas da caça e da coleta; o tamanho de um rebanho proto-humano não podia ultrapassar esse limite mágico sem convocar, ou melhor, conjurar forças e (sim!) ferramentas além de dentes e garras. Sem essas outras for­ças e ferramentas, ditas “culturais”, a proximidade permanente de um número maior de pessoas teria sido insustentável; assim, a capacidade de “ter em mente” um montante maior teria sido supérflua.
  “Imaginar” uma totalidade mais ampla do que aquela aces­sível aos sentidos era desnecessário e, naquelas circunstâncias, inconcebível. As mentes não precisavam armazenar o que os sentidos não haviam tido a oportunidade de apreender. A che­gada da cultura deveria coincidir, como de fato ocorreu, com o momento em que se ultrapassou o “número de Dunbar”. Teria sido esse o primeiro ato de transgressão dos “limites naturais”; e, como transgredir limites (sejam eles naturais ou autoestabelecidos) é o traço definidor e o próprio modo de ser da cultura, ele é também o ato que marca seu nascimento?
  Observemos também que, com o início da sequência cultu­ral da evolução, o campo dos relacionamentos reconhecidamente “significativos” dividiu-se, para todos os fins e propósitos práticos, em dois espaços, de acordo com dois tipos de “significação” dife­rentes, autônomos, embora inter-relacionados: o sensual/emocio­nal, ou específico, e o mental ou abstrato. A primeira variedade de “significação” é que pode ter “estabelecido limites”, pois continua dependendo do equipamento (essencialmente inalterado) que a evolução forneceu à espécie humana; a segunda variedade, contudo, é emancipada das restrições impostas por “limites naturais” embora seja livre, ao mesmo tempo, para estabelecer (e revogar ou transgredir na prática) seus próprios limites.
  Muito do trabalho da cultura até agora consistiu e continua a consistir em traçar e retraçar as fronteiras que separam o “aqui” do “lá”, o “dentro” do “fora”, o “nós” do “eles”, e em continuar subdividindo e diferenciando os terrenos no interior de cada um deles; dada a pluralidade de culturas e de interfaces das inter­venções culturais, consiste também em gerar “áreas cinzentas” de ambivalência entre territórios adjacentes, e também focos de desavença que, por sua vez, oferecem mais um estimulo ao impul­so de estabelecer fronteiras. O “número de Dunbar” é ele próprio um exemplo típico do exercício cultural de traçar fronteiras (ati­vidade que remonta, segundo o mito etiológico de Lévi-Strauss, ao “nascimento da cultura”, ou seja, à proibição do incesto, à divi­são das mulheres entre objetos permitidos e proibidos).
  As “redes de relacionamento” com base eletrônica prometiam romper as intrépidas e recalcitrantes limitações à sociabi­lidade estabelecidas por nosso equipamento transmitido pela genética. Bem, diz Dunbar, não o fizeram e não o farão: a pro­messa só pode ser quebrada. “Sim”, diz ele em seu artigo publi­cado no New York Times de 25 de dezembro, “você pode estabe­lecer ‘amizade’ com 500, mil, até 5 mil pessoas em sua página no Facebook, mas todos, com exceção do núcleo de 150, são meros voveurs observando sua vida quotidiana.” Entre esses milhares de amigos do Facebook, as “relações significativas”, sejam elas eletrônicas ou vividas off-line, estão restritas, tal como antes, aos limites impassíveis do “número de Dunbar”. O verdadeiro servi­ço oferecido pelo Facebook e outros sites “sociais” dessa espécie é a manutenção de um núcleo estável de amigos nas condições de um mundo altamente inconstante, em rápido movimento e acelerado processo de mudança.
  Nossos ancestrais distantes tiveram uma facilidade: assim como as pessoas que lhes eram próximas e queridas, eles ten­diam a morar no mesmo lugar do berço ao túmulo, ao alcan­ce da vista uns dos outros. Isso indica que a base “topográfica” dos vínculos de longo prazo e até para toda a vida não tende a reaparecer, muito menos a ser imune ao fluxo do tempo, vul­nerável como é às vicissitudes das histórias de vida individuais. Por felicidade, agora temos formas de “permanecer em contato” que são plena e verdadeiramente “extraterritoriais” e, portanto, independentes do grau e da frequência da proximidade física.
  “O Facebook e outros sites de redes sociais”, e apenas eles insinua Dunbar “nos permitem manter amizades que de outro modo logo definhariam.” Mas esse não é todo o benefício que proporcionam: “Eles nos permitem reintegrar nossas redes de modo que, em vez de termos vários subgrupos de amigos des­conectados, podemos reconstruir, embora virtualmente, o tipo de comunidade rural antiga em que todo mundo conhecia todo mundo” (grifo meu). No caso da amizade, ao menos, pelo que está implícito no texto de Dunbar, ainda que não com tantas palavras, foi refutada a ideia de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem”, embora sua outra memorável sugestão, a do advento de uma “aldeia global”, tenha se tornado realidade. “Ainda que virtualmente”...
  Mas a “virtualidade” não seria uma diferença que faz a diferença maior e com muitas outras consequências para o desti­no das “relações significativas” do que Dunbar está disposto a (ou se preocupa em) admitir? Viver nas “antigas comunidades rurais” tornava difícil criar vínculos que já não tivessem sido estabelecidos “por si mesmos”, precisamente pela circunstância de as pessoas estarem misturadas dentro da mesma comuni­dade rural”; e também dificultava (talvez mais) a dissolução dos vínculos que já estavam ali; era custoso anulá-los e invalidá-los, a não ser pela morte de uma ou mais pessoas por eles ligadas.
  Viver on-line, por outro lado, torna o “estabelecimento” de uma relação algo muitíssimo fácil; mas também facilita bastante a opção de abandonar uma relação, ao mesmo tempo que torna enganosamente fácil, nesse meio tempo, negligenciar a perda de conteúdo da “relação” quando esta se enfraquece, murcha e afi­nal se dissolve por mera falta de atenção.
  Há motivo para suspeitar de que são essas facilidades que têm assegurado e garantido a tremenda popularidade dos sites das “redes sociais”; e que fez de seu autoproclamado inventor e sem dúvida marketeiro-chefe, Mark Elliot Zuckerberg, um multibilionário instantâneo. Essas faculdades permitiram que o avanço moderno rumo ao desembaraço, à conveniência e ao conforto enfim alcançasse, conquistasse e colonizasse uma ter­ra até então teimosa e apaixonadamente independente dos vín­culos humanos. Tornaram essa terra livre de riscos, ou quase; impossibilitaram, ou quase, que pessoas não mais desejáveis abusassem da hospitalidade; fizeram com que reduzir as perdas fosse uma coisa gratuita. No cômputo geral, conseguiram a faça­nha de enquadrar o círculo, de preservar uma coisa e ao mesmo tempo destruí-la. Ao livrar a atividade do inter-relacionamento de toda e qualquer amarra, esses sites puxaram e removeram a mosca feia da inquebrantabilidade que costumava manchar o doce unguento do convívio humano.
  Dunbar está certo ao afirmar que os substitutos eletrônicos da comunicação face a face atualizaram a herança Idade da Pedra, adaptando e ajustando os métodos e recursos do conví­vio humano às exigências de nossa nouvel âge. O que ele parece esquecer, contudo, é que, no decorrer da adaptação, esses méto­dos e recursos também foram muito alterados; por isso, as “rela­ções significativas” também mudaram de significado. O mesmo deve ter acontecido com o conteúdo do conceito de “número de Dunbar”. A menos que seja exatamente o número, e somente o número, que esvazie seu conteúdo.
 
Zygmunt Bauman
Enviado por Germino da Terra em 23/08/2012
Alterado em 24/08/2012
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